História do Reguengo

Historia do Reguengo do Fétal

Sabendo-se de ciência certa, que Reguengo é um adjetivo que tem por função significar que uma coisa é pertença real (portanto de um rei), não restam dúvidas que, este pedaço de terra onde se formou a povoação, que haveria de estender o seu domínio paroquial à vasta área duma enorme freguesia, que de si já desanexou duas outras, fez com que, toda essa extensão territorial tomasse o seu nome, como sendo “ A Freguesia do Reguengo”. Atente-se no facto de, um simples lugarejo, terá começado, por certo, com uma ou duas casas, onde os reguengueiros – as pessoas arrendatárias ao rei, das suas terras – hão-de ter morado, com a expansão habitacional, o crescendo dominante, veio a tornar o topónimo extensivo a uma vasta superfície territorial.

Este reguengo, como bem se compreende, situava-se algures, num lugar designativo que, por isso mesmo, lhe servia de identificação. Era a vasta área conhecida por Magueixa. E, assim, ao ser criado o reguengo como propriedade explorável, ficou logo a ser designado por Reguengo da Magueixa. Pressupõe-se que o lugar da Torre, também ele designado por Torre da Magueixa, já existisse como povoado, antes do Reguengo o ter sido.

Em tempos idos, tivemos a preocupação de levar este assunto até ao âmago da questão, tendo consultado as pessoas que, a nosso ver, mais e melhor nos poderiam ajudar a desembrulhar a meada. Pouco conseguimos, mas desse pouco fizemos eco. Primeiramente, em O Jornal do Reguengo, em vários números, mormente nos 61 e 76, onde se deu guarida às abalizadas opiniões dos Dr. Luciano Justo Ramos e Professor J. Diogo Correia. Com esses mesmos elementos, pudemos ter considerações que se poderão ler no opúsculo que elaborámos, a quando das comemorações dos 460 anos da Freguesia, portanto, em 1973. Trata-se de pouco mais do que um folheto, porquanto são apenas 17 páginas de texto in fólio 8, onde se dá nota de alguns dados relativos á freguesia e, para onde remetemos os interessados em conhecer mais pormenores. Aí se rememora a situação, composição e as origens da freguesia, os templos que possui e os que já desapareceram, como também alguns lugares que tiveram a mesma desdita. Invocam-se as festividades religiosas ao tempo, as Confrarias e anota-se a atividade do Rancho Folclórico, locais de beleza, etnografia e outras referências de interesse local. (….)

(…) Já que indicámos que nesse opúsculo fazemos menção da situação geográfica da freguesia, aproveitamos para atualizar esses dados, com outros, também de nossa lavra, insertos no livro “Tempos e História”, editado pela Camara Municipal da Batalha em 2000, a quando das comemorações dos 500 anos do Concelho e Vila da Batalha. Aí, nesse volume que alberga trabalhos de vários autores, ocupamo-nos da nossa freguesia desde a página 207 até 225, iniciando a descrição desta forma:

“Situa-se a Sudoeste da sede do concelho, sendo limitada, a Norte pelas freguesias da Barreira, das Cortes e do Arrabal, todas do concelho de Leiria, pelo Este e Sudoeste com a de S. Mamede, cujo território fez parte integrante da sua área até ao ano de 1917. A Sul, limita-a a freguesia do Alqueidão da Serra, do concelho de Porto de Mós e que, igualmente pertenceu á sua jurisdição até ao ano de 1620. Pelo Oeste a freguesia da Batalha e, a Noroeste, a mais nova freguesia do concelho batalhense, a da Golpilheira:”

Nas origens, referenciamos o documento de doação, feito em Leiria, no ano de 1372, da nossa era, que dá posse a um tal Álvaro Gonçalves, do Reguengo da Magueixa, o que significa ser, ao mesmo tempo, uma propriedade rural, sem habitações. Ei-lo:

“Carta per que o dicto senhor deu emquanto sua merceem fosse o seu reguengo de magega que he em termo de leirea a aluaro gonçalluez seucorregedor. Em leirea Vii dias de nouembro de mil iiic e dez anos” (Chanc. D. Fernando, L.I, fl. 114 vº.)

Das várias formas que, ao longo dos tempos, se usaram para grafar o nome da nossa terra, dá-nos nota pormenorizada um ilustre reguengueiro, de seu nome Joaquim Ribeiro Gomes Calado, no seu excelente livro histórico-etnográfico, ao estilo monográfico, editado em 2001 – Reguengo do Fètal…Contributos para o estudo histórico-etnográfico duma freguesia plurissecular.

É um bem elaborado repositório de factos e retalhos de vidas, que os amantes do Reguengo não poderão deixar de ler, porque ali sente-se o pulsar das gentes que com seu suor e sangue caldearam a “raça” que as distingue. E, porque assim é, permitimo-nos transcrever do nº 1 de “Jornal do Reguengo”, datado de 1 de Novembro de 1965, o que nele escreveu o, então Presidente da Câmara Municipal da Batalha, Luís Tomaz Oliveira, sob o pseudónimo de LUTOS:

“Próspero rincão da freguesia de que a sede, Reguengo do Fetal, é no conjunto Terra-Gente, dos mais díspares. (…)

Sejam as desigualdades topográficas a provocar as diferenças de caracteres, alterados ou corrigidos ao espelharem-se nas águas que sussurram na formosa Curva-Lã, esta gente é rude e inteligente, desordeira e amiga, impetuosa e calma, irreverente e hospitaleira.”

E, mais adiante no mesmo artigo:

“Lamentam-se porque padecem, exigem porque sabem ter direitos. Esta gente é assim. Boa gente a do Reguengo do Fetal, que marca sempre e em tudo a sua presença.”

Acertada apreciação esta!

Na mesma linha de apreciações se pronunciou, na noite de 14 de Março de 1940, em Conferência proferida na extinta Casa do Distrito de Leiria, em Lisboa, um ilustre reguengueiro, de seu nome Adelino Mendes, emérito jornalista de “O Século”, muitos anos seu fundista, quando afirmou:

“ A minha aldeia é farta, fértil e fria, desconhece a miséria e vive tão satisfeita que não pede nada a ninguém … Povo faminto de trabalho, integrado no ambiente estático em que vive e, com ele, perfeitamente amalgamado, tem tradições perdidas na voragem das eras mortas e não as esquece nem deturpa. É religioso sem ser fanático. Festeja os seus oragos como quem rende homenagem a pessoas amigas, faz estralejar foguetes às molhadas nos dias álacres das romarias e pela tarde, quando os arraiais atingem o apogeu e os vinhos do Reguengo despertam as imaginações adormecidas, não é de surpreender que os cajados de nodoso marmeleiro risquem no ar calmo taios e tão complicados molinetes, que tudo se transmude num vasto campeonato de jogo de pau para ajuste de contas antigas…”. Em 1980, o sociólogo Professor Moisés do Espirito Santo, natural do concelho batalhense, publicou um trabalho intitulado Estudo de sociologia rural, que havia de reeditar em 1999, já com desenvolvimento de grande livro, em que é abordado o Reguengo, na sua formação, vivência e função sociológica, através da observação do autor.

Este trabalho, descontados alguns exageros, muitas inexatidões, certamente filhas da imperfeição dos informes recolhidos, onde se denota falta de escrupulosidade verídica, não deixa de constituir um guia para se apreciar o modus vivendi reguengueiro. Se, não fossem esses pecadilhos apontados, poder-se-ia dizer estarmos em presença de um retrato fidedigno duma comunidade rural, facto que o autor quis realçar, mas que se verifica o ter-se limitado a uma reflexão muito abrangente e generalizada que não permite ao mais perspicaz dos seus leitores aquilatar quais as mais profundas e diferenciadas modificações operadas no decurso de uma vintena de anos, tantos quantos medeiam as duas edições, por forma a que, no presente, se possa fazer um juízo, já não diremos perfeito, mas sério, do que se encontra, face ao desaparecido. É pena. Já por se tratar se tratar de um professor universitário de abalizados créditos, já por ser nado e criado a menos de um tiro de espingarda do Reguengo. (…). IN “O CENTRO PAROQUIAL DE ASSISTÊNCIA DO REGUENGO DO FETAL - SUA VIDA E HISTÓRIA (1955 – 2005) ”, MAPONE